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Você pode beber e falar de vinhos mesmo sem ser um profissional

Por: Carlos Alberto Barbosa

O cenário é conhecido por muitos, tenho certeza: você entra em uma loja especializada em vinhos ou senta-se à mesa de um restaurante e se sente desconfortavelmente vigiado pelos olhos e ouvidos atentos do maître ou sommelier na hora de apontar o rótulo que deseja.

Mesmo já tendo se aventurado em seus goles de vinhos de diferentes faixas de preço, muitos balançam ao serem postos à prova diante da tarefa de achar a garrafa que mais se adequa à ocasião, ou melhor, harmoniza com os pratos que seguirão.

Se você tem tais preocupações, saiba que sua relação com vinhos já não é de um simples iniciante desinteressado, você já se encontra em um patamar acima.

De qualquer forma, é curioso notar que a mesma pessoa, diante de um menu recheado de pratos com nomes difíceis, não hesita em indagar ao maître sobre os ingredientes e forma de preparo das iguarias; dadas as explicações, não há qualquer constrangimento em decidir sobre um dos pratos listados.

Mas por que com o vinho tem de ser diferente? Por que às vezes fica a impressão que este é um universo inacessível, restrito a poucos e bons: os críticos e profissionais de vinho?

Definitivamente, desmitificar parece ser a palavra de ordem. Muitas empresas que buscam ampliar a participação do vinho no segmento de bebidas alcoólicas sustentam que esse é um dos pontos centrais a ser atacado.

O consumidor não trocará sua garrafa de cerveja por uma de vinho enquanto não se sentir à vontade para escolher e opinar sobre um produto cujos jargões criam uma aura em torno do seu consumo, dando vida a histórias e mitos que parecem não lhe pertencer.

Todavia, isso não deve significar um mergulho no total subjetivismo na avaliação do vinho.

No afã de facilitar o trabalho ou mesmo suprir as deficiências na formação do consumidor, alguns advogam a subjetividade como pedra basal do sistema de escolhas pelo cliente.

Mas é preciso ter cautela, pois um "vale tudo" pode ser tão danoso para o consumidor quanto é a crítica mais inacessível.

Em uma matéria recente de um dos blogs do jornal londrino The Guardian, Oliver Thring toca nessa questão ao discutir o valor da crítica especializada de vinhos para o consumidor final.

Seu ponto de partida é o trabalho de Tim Hanni, um bem-sucedido profissional do mundo do vinho, consultor de cadeias de hotéis internacionais, chef certificado, detentor do cobiçado título de Master of Wine e membro do American Institute of Wine and Food.

Após ter praticado e ensinado anos a fio as características objetivas da avaliação de vinhos e suas melhores harmonizações, Hanni voltou-se para o lado oposto e passou a defender, de maneira igualmente ávida, a subjetividade no julgamento de vinhos, tendo em vista o fato de pessoas diferentes possuírem diferentes sensibilidades e, portanto, diferentes formas de percepção diante de uma mesma taça.

Ao longo das últimas décadas, com o crescimento do consumo de vinhos finos no Brasil, a bebida entrou na moda. E foram criados círculos mais ou menos secretos em torno do objeto de desejo, com um vocabulário específico se configurando.

Todo esse movimento gerou uma série de benefícios, como a formação de núcleos de educação e treinamento para profissionais que vivem o dia a dia do vinho, sejam eles ligados aos processos produtivos, administrativos, de distribuição ou de vendas.

Graças a esses núcleos de formação, o consumidor hoje pode entrar em lojas especializadas e em alguns supermercados, e logo ter auxílio na escolha do melhor produto, de acordo com o seu perfil ou ocasião em que pretende abrir a garrafa.

Mas o movimento de formação não seguiu também na direção do consumidor final, ao menos não com a mesma ênfase. As possibilidades de escolhas se multiplicaram em velocidade tal que nenhum consumidor poderia acompanhar a diversidade de rótulos e safras disponíveis, nem o volume de informações que saem na mídia sobre esse mar de vinhos.

Mesmo as publicações destinadas ao apreciador leigo muitas vezes impõem barreiras ao seu leitor, fazendo uso de termos técnicos e jargões.

Nem tanto ao céu nem tanto ao mar

John Bender, doutor em filosofia pela Universidade de Harvard e experiente juiz em competições de vinhos, escreve um dos capítulos do livro organizado por Fritz Allhoff, Wine and Philosophy (Blackwell, 2008).

Em What the Wine Critic Tells Us (em tradução livre, O que a Crítica de Vinhos nos Informa), Bender transita entre os critérios objetivos e subjetivos da crítica, ou seja, ele tenta estabelecer quais são os aspectos objetivos e subjetivos aos quais os degustadores de vinhos estão sujeitos, sejam eles profissionais ou não.

A primeira estaca fincada por Bender diz respeito ao que se entende por subjetivo; o termo equivale a aspectos inerentes à atividade intelectual em torno da degustação, ao julgamento e à forma de comunicar as impressões sobre um determinado vinho.

Segundo Bender, não é subjetivo encontrar determinadas características de aromas, texturas e sabores específicos nos vinhos, pois são decorrentes de transformações fisicoquímicas sofridas ao longo do processo de produção e envelhecimento da bebida.

Por outro lado, é subjetivo fazer uso de metáforas para remeter a estas características. Ou seja, perceber no vinho aromas de frutas, flores e especiarias, como cravo e pimenta do reino, dentre tantos outros, são explicáveis à luz da química e podem ser detectados tanto por exames laboratoriais que isolam as cadeias de elementos químicos na bebida quanto através de exames olfativos levados a cabo por degustadores.

Estes são os aspectos objetivos do vinho. Todavia, associar a intensidade de um destes aspectos a paisagens, formas musicais, clássicos da pintura ou fazer uso de palavras como "vibrante" e "musculoso", entre tantas outras, faz parte dos aspectos subjetivos. Tais aspectos dizem respeito a experiências e repertórios individuais.

A passagem dos aspectos objetivos para as metáforas parece ser a chave do problema. Informar sobre os aromas que podem ser percebidos em certo vinho é parte da educação do paladar do consumidor.

Ele aprende com isso, o que abre as portas para que outras experiências sejam perseguidas. A vontade de reconhecer determinados aromas em outras amostras de vinho passa a fazer parte de sua viagem rumo aos prazeres da bebida.

Isso deve valer pra todos os níveis de consumidores, desde os que buscam vinhos mais simples para acompanhar a macarronada do almoço de domingo até os que selecionam rótulos mais exclusivos para jantares em restaurantes sofisticados.

A cada bolso um gosto, e não há qualquer demérito nisso. Ao tentar criar figuras de linguagem em torno das descrições mais objetivas, muitas vezes as metáforas utilizadas são tão próprias da memória e do universo pelo qual transita o crítico que o consumidor comum se vê afastado da possibilidade de fazer parte daquela experiência.

A questão não é a validade da metáfora enquanto tal, mas se ela de fato causa algum outro efeito no consumidor que não um sentimento de impotência diante do vinho.

Metáforas bem elaboradas, às vezes aparentemente simples, podem auxiliar um iniciante a entender o que significa determinada amostra de vinho em meio a tantas outras.

Metáforas por demais rebuscadas e herméticas podem afastar por completo o aprendiz da matéria em questão. Isto vale para vinhos, matemática ou filosofia, todo educador sabe.

Você agora deve estar se perguntando: bom, mas e aí? O que eu faço diante da carta de vinhos ou da prateleira de bebidas em lojas e supermercados? O que eu faço com o sommelier ou maître arrogante do início do texto?

A dica é: não recue, não se intimide. Pergunte. Procure auxílio e pergunte sempre ao sommelier ou atendente de vinhos. Não tema fazer perguntas sem sentido, pois todas elas têm sentido, ao menos para você que quer aprender.

Caso note um ar arrogante, abaixe ainda mais o nível das perguntas, e questione sobre coisas básicas e os termos que ele está usando para explicar determinado vinho.

Se for um bom profissional, ele encontrará a melhor forma de conduzir a explicação para que você entenda e opte com consciência. Se for um mau profissional, a arrogância saltará aos olhos, e você saberá que não adianta insistir.

Nesse caso, escolha sem seu auxilio, e busque prazer na aventura. Afinal, como marcou Bender em seu texto, a degustação é uma reação ao prazer causado pelo vinho, e atenção, experiência e memória são fundamentais para que o prazer do gole ocorra.

Não deixe que atrapalhem seu momento. Em tempo: tudo isso só é válido se você for um consumidor moderado, que consegue se manter atento e sóbrio durante suas degustações e conversas sobre o tema. Caso contrário, não gaste dinheiro com boa bebida!

 


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