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17 vinhos que fazem sonhar

Um passeio pelos melhores vinhos do mundo

Raros, com aromas e sabores capazes de satisfazer à mais exigente das almas, frutos de uma cumplicidade silenciosa entre a natureza e os vinhateiros e, em geral, com preços altíssimos, certos vinhos merecem ser brindados com a reverência que se dedica a uma obra de arte. Muitos deles só são produzidos em anos de colheita privilegiada em regiões mágicas como as de Bordeaux e Bourgogne, na França, da Toscana, na Itália, e do Napa Valley, na Califórnia, mas também de novos centros produtivos, como a Austrália.

Nas páginas seguintes você encontra um pouco da história e das características de dezessete dessas preciosidades, que selecionamos com a ajuda de nossa confraria de experts. Alguns são raridades e outros, mais do que isso -- como um magnum do Château Lafite Rothschild, safra 1822, existente na carta do restaurante Forge, em Miami, ao preço de 40 000 dólares --, são apenas para sonhar.

Château Mouton Rothschild

Este é, sem dúvida, um dos mitos entre os tintos: cada garrafa guarda uma cor rubi intensa e aromas fantásticos de cassis e de outras frutas vermelhas. Nasceu em 1924, por obra de Philippe de Rothschild, bisneto do barão Nathaniel de Rothschild, em um pequeno vinhedo na cidade de Pauillac, no coração de Bordeaux, berço dos melhores vinhos finos do mundo. A uva Cabernet Sauvignon é a responsável pela fama e categoria do Mouton.

A qualidade e a elegância da marca foram responsáveis pela única mudança feita na classificação francesa de 1855, que dividiu e nomeou os vinhos por faixa de qualidade. Essa alteração, feita em 1973, elevou o Mouton à categoria de Premier Cru Classe, que abriga os melhores vinhos. Outro diferencial deste Château é que, desde 1945, seus rótulos são desenhados por artistas como Salvador Dalí, Joan Miró, Marc Chagall, Pablo Picasso e Andy Warhol. Boas safras: 1945, 1953, 1961, 1970, 1976, 1982 (cerca de 1 700 dólares), 1986 e 1990 (cerca de 650 dólares).

Barca Velha

Produzido pela Casa Ferreirinha na Quinta do Vale do Meão, na região do Douro, para muitos experts é o melhor vinho tinto português. Os 50 hectares de vinhedos destinados ao Barca Velha recebem a cotação máxima da Casa do Douro, órgão responsável pela classificação das uvas naquela região. A variedade Tinta Roriz responde por 60% de sua composição, ficando os restantes 40% com a Touriga Nacional e Francesa e com a Tinta Amarela. O vinho só é produzido em anos considerados excepcionais pela vinícola. Suas últimas produções aconteceram nos anos de 1978, 1981, 1982, 1983 e 1985. O preço da garrafa da última safra gira em torno dos 130 reais -- mas elas são difíceis de encontrar. "Quanto mais velho esse vinho, melhor", ensina o expert Edison Chediek, da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS).

Gran Vin de Château Latour

Outro Premier Cru Classe, brindado pela classificação feita por Napoleão III em 1855. Em Pauillac, seus 65 hectares de vinhedos ficam, mais especificamente, na sagrada região do Médoc, norte de Bordeaux. O Latour demora um pouco mais para envelhecer do que os outros châteaux, atingindo seu apogeu de aromas cerca de quinze anos depois de engarrafado. Da uva Cabernet Sauvignon ele recebe a elegância e os aromas de frutas vermelhas; a Merlot lhe confere o aveludado e a maciez; e da Petit Verdot, cultivada em pequena quantidade, ganha os taninos necessários para fazer dessa mistura uma das mais célebres.

A colheita é feita em setembro e, em dezembro, o vinho já está descansando em barris de carvalho novos, onde vai ficar por dois anos e meio aguardando o engarrafamento. Consideram-se como as melhores as safras dos anos de 1961, 1966, 1970, 1982 e 1990. Os preços no Brasil variam de 320 dólares (safra de 1993) até 1 165 dólares (safra de 1982). "O da safra de 1990 é o melhor que já bebi", conta o médico Mário Telles Junior, membro da ABS. "O Latour é o mais consistente dos grandes vinhos de Bordeaux", completa o jornalista e crítico Saul Galvão.

Romanée-Conti

É um vinho para reflexão e alegria da alma, costumam dizer seus apreciadores. E eles têm razão. Tinto mais famoso da região francesa da Bourgogne, onde é produzido na comuna de Vosne-Romanée, este vinho é uma maravilha engarrafada. A área de sua produção tem apenas 1,8 hectare, o que resulta entre 6000 e 7000 garrafas por ano. A uva Pinot Noir lhe confere cor vermelha próxima do rubi e marcantes aromas de violeta e cassis. Além da qualidade do solo, que resulta em uvas excepcionais, outros fatores ajudam a fazer a lenda do Romanée-Conti.

A colheita, por exemplo, é feita tardiamente, apenas com as uvas completamente maduras. Sua fermentação é mais longa, entre três semanas e um mês, e, por fim, a maturação por dois anos é feita em barris novos de carvalho. Não são vendidas caixas inteiras do vinho, mas uma mistura de garrafas que contempla todos os vinhos da vinícola, como o Romanée-ST-Vivant e o La Tâche. O preço de uma única garrafa, da safra de 1985, é de 7 980 dólares. "O da safra de 1980 é maravilhoso", garante o expert

Château Lafite Rothschild

Outro dos tintos que fazem parte do seleto grupo dos Premier Grand Cru Classe e, portanto, merece todos os elogios. Seus vinhedos foram passando por várias mãos desde 1234, quando pertenciam ao empresário Gombaut de Lafitte (atualmente, no rótulo, com um "t", Lafite). Depois passou para o vinhateiro Alexandre de Ségur, em seguida para um banqueiro inglês até, em 1868, ser adquirido pela tradicional família Rothschild.

Os vinhedos estão situados nas colinas mais altas de Pauillac, próximo de Saint Estéphe, nas margens do Rio Gironde. São 60 alqueires de uvas -- boa quantidade de Merlot, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot --, com intervalo de 1 metro entre cada parreira. O resultado é um vinho de aroma complexo e corpo elegante. O preço da safra de 1981 é de 520 dólares.

Solaia

Representante italiano de nossa lista, o Solaia é produzido na região do Chianti, na Toscana. Feito a partir de uvas da variedade Cabernet Sauvignon e Sangiovese, nas adegas de Marquese Piero Antinori, lembra muito um Bordeaux. Antinori é, atualmente, o nome mais reverenciado dessa parte da Itália. É um vinho redondo, muito bom, com fortes aromas de frutas vermelhas. O marketing da vinícola é todo voltado para o Tignanello, outro vinho de sua produção, mas os experts garantem que o Solaia é melhor. Seu preço felizmente ainda não está na casa dos absurdos. O da safra de 1994, por exemplo, custa 58 dólares. Garrafas da safra de 1985, considerada a melhor, são difíceis encontrar e, assim, há grandes variações de preço. "O Solaia de 1985 foi o melhor toscano que já bebi", afirma o crítico Jorge Carrara. "É comparável aos grandes de Bordeaux."

Château Haut Brion

Branco, da região de Bordeaux, que transborda qualidade. Como essa região francesa e o Château Haut Brion são conhecidos pela qualidade de seus vinhos tintos, os brancos lá produzidos acabam um pouco esquecidos -- o que é injusto.

Na elaboração do branco, a uva Sauvignon Blanc garante boa acidez, ficando a cargo da Sémillon o caráter e o corpo do vinho. É bastante frutado, lembrando maçã verde, pêssego e abacaxi. Grandes safras foram as de 1982, 1986, 1987 e 1996. O preço no Brasil fica na casa dos 320 dólares (safra de 1990).

Caymus Special Selection

Para muitos experts o Caymus é o melhor vinho da Califórnia e quem quiser conferir essa qualidade pode se preparar: um novo lote da marca, da safra de 1994, uma das melhores, está chegando ao país. Se repetir o sucesso anterior, deve sumir rapidamente. O Special Selection é produzido apenas em anos especiais -- casos, por exemplo, das safras de 1979, 1981, 1983 e 1986, entre outras --, pelo enólogo Charles Wagner, na cidade de Rutherford, região do Napa Valley, utilizando basicamente a variedade Cabernet Sauvignon.

Bem encorpado, o vinho apresenta aromas de especiarias, pão tostado e madeira e, na boca, deixa a agradável sensação de frutas vermelhas e pimentão. O preço no Brasil deve ficar em 130 dólares.

 

                                   Penfolds Grange

Esta é uma das maiores surpresas do mundo do vinho. Nascido na Austrália, região ainda nova na produção de vinhos de qualidade, o exemplar da safra de 1990 foi eleito em 1995, pela revista americana Wine Spectator, bíblia do assunto, como o melhor do mundo. Exagero ou não, o Penfolds Grange, elaborado com 85% de uvas Shiraz e 15% de Cabernet Sauvignon, é, realmente, um excelente vinho, que, antes de ser engarrafado, envelhece de dezoito a 24 meses em barris de carvalho americano.

São dois os pais da criança. Um é o médico inglês Christopher Rawson Penfold, que em 1844, de mudança para a Austrália, levou mudas de uvas viníferas e as plantou nas cercanias de Adelaide, num rancho que batizou de The Grange. O outro é o vinhateiro Max Schubert, que foi contratado para desenvolver os vinhos da empresa. A primeira grande safra foi a de 1955 e, em geral, o vinho apresenta aromas de especiarias, ameixas, cassis e outras frutas vermelhas. No paladar, é marcante a sensação de chocolate e café.

Petrus

Considerado por muitos como o rei dos vinhos tintos, o Petrus, abrigado na região francesa do Pomerol, no sudoeste do país, é o único que não faz parte da classificação oficial de 1855. É uma grande injustiça, já que o vinho tem as mesmas qualidades que aqueles agraciados com o título de Premier Grand Cru. O Petrus é completo, com buquê ligeiramente trufado, excelente corpo e equilíbrio. O solo do Pomerol é o único da região coberto com uma camada de argila sobre a terra rica em óxido de ferro.

Os segredos de sua produção continuam na colheita das uvas, realizada apenas entre 11 e 17 horas, quando não há mais vestígio do orvalho noturno. Elaborado com a cepa Merlot, passa por um período de fermentação de 25 dias em cubas de cimento, sendo envelhecido em barris novos de carvalho, para depois descansar durante 24 a trinta meses nas adegas da vinícola. Um Petrus safra 1990, sai por cerca de 2 850 dólares. "As safras de 1945 e de 1961 produziram vinhos espetaculares, de puro sonho", informa o expert Ennio Federico, membro da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (SBAV).

Montrachet (Domaine de La Romanée-Conti)

Se alguém tem preconceito com relação ao vinho branco, precisa, urgentemente, conhecer o Montrachet, o melhor vinho branco do mundo. Produzido em Côte d'Or, no coração da região francesa da Borgonha, sua cor amarelo-ouro e seu aroma intenso, que lembra pão tostado, são duas de suas características principais. Feito com a uva Chardonnay, seu nome deriva da montanha Mont Rachat, em cujas encostas rochosas estão plantadas as vinhas. O Montrachet é feito por um número pequeno de produtores.

O melhor deles é o produzido dentro da propriedade do Domaine de La Romanée-Conti, elaborado com uvas próprias e, portanto, com maior fiscalização da matéria-prima. Outras casas compram a uva de terceiros. Também são muito bons os feitos pelo Marquis de Laguiche, comercializado pelo produtor Joseph Drouhin; e o Baron Thénard, vendido pela Bouchard Père & Fils. Anote as boas safras: 1978, 1979, 1982, 1983, 1986, 1990 e 1992. O preço do Montrachet do Romanée-Conti, safra 1990, é de 1 380 dólares.

Dom Pérignon

Por incrível que pareça, um fenômeno da natureza conhecido como Botrytis cinerea, um fungo que ataca os parreirais -- geralmente no outono --, perfurando delicadamente a casca das frutas até provocar a saída da água e sem deixar entrar ar na polpa, é o responsável pela magia deste vinho, o único branco doce com o título de Premier Grand Cru, produzido em Sauternes, na região de Bordeaux. Com a desidratação, a fruta aumenta em muito sua concentração de açúcar e de elementos aromáticos. A uva fica com cor cinzenta, enruga, como se fosse uma passa, parecendo podre. No caso do Yquem, a colheita das uvas é sempre manual, com os vinhateiros passando várias vezes pelos parreirais e escolhendo apenas as uvas atacadas pelo fungo.

Mesmo entre os produtores da região, a disputa é para fazer o segundo melhor vinho -- todos sabem que o Yquem é insuperável. "Com o Château D'Yquem o consumidor nunca vai se decepcionar. É sempre um vinho exuberante", elogia o expert e sócio da importadora Vinum Jorge Lucki. Ele não deve ser tomado jovem. O ideal é que envelheça em tonéis de carvalho por alguns anos e, depois, nas garrafas, por no mínimo sete ou oito anos. "Com o envelhecimento, o vinho ganha aromas de compota de frutas, uma cor dourada brilhante e diminui a acidez no paladar", conta Manoel Beato, sommelier do restaurante Fasano, em São Paulo.

Château D'Yquem

"Estou bebendo estrelas!", teria gritado em estado de graça o monge beneditino Dom Pérignon ao descobrir a melhor maneira de aprisionar as bolinhas (perlage) nas garrafas dos vinhos produzidos naquela região francesa e, assim, inventar o champanhe. Como tributo ao bom frade, a magnífica casa Moët et Chandon batizou o rótulo especial com seu nome.

A Chardonnay utilizada em sua elaboração vem das colinas da Côte de Cremant e a Pinot Noir, dos vinhedos de Bouzy, Verzenay e Ay, os melhores da Moët. Em geral, sua cor é amarelo-palha, com intenso buquê de frutas secas, como amêndoas e nozes. O da safra de 1985 é fantástico, com muita espuma e perlage.


Château Cheval Blanc

Outro grande vinho de Bordeaux, da comuna de Saint-Émilion, onde reina soberano e ostenta o título local de Premier Grand Cru Classe. A exemplo de outras sub-regiões francesas, essa também tem solo bastante pedregoso, com suas vinhas plantadas em terreno plano no limite da divisa com o Pomerol.Na região existe grande predominância da uva Merlot, mas, no Cheval Blanc, a variedade Cabernet Franc desenvolve sua potencialidade na forma de aroma e paladar de frutas como cassis e morango. Os preços no Brasil oscilam de 640 (safra 1986) a 530 dólares (safra 1989). "Sonho até hoje com um Cheval Blanc, safra 1947, que provei há alguns anos", recorda o médico José Luiz Borges, outro membro da ABS.

Château Margaux

É um dos cinco vinhos Premier Cru Classe do Médoc na classificação de 1855. O Château Margaux fica no meio de um vasto parque. Situado 30 quilômetros ao norte de Bordeaux, Margaux é um vilarejo rodeado por vinhedos que brotam em solo pedregoso e calcário. Seus vinhos necessitam amadurecer entre oito e dez anos para alcançar seus aromas intensos e delicados de frutas vermelhas e seu paladar aveludado.

O Château Margaux é fermentado durante três semanas em tonéis de carvalho, para, em seguida, amadurecer por dois anos em pequenos barris novos, também de carvalho. Algumas grandes safras foram as de 1970, 1976, 1982, 1984, 1985, 1986, 1988 (540 dólares a garrafa) e 1990. "Provei no ano passado, ainda nas barricas, o da safra de 1996, e trata-se de um vinho fantástico", antecipa Manoel Beato.

Vega-Sicilia

Este é o grande vinho da Espanha -- um tinto comparável aos melhores franceses. Existem dois tipos de Vega-Sicilia. O "Único", que traz a indicação de safra e é envelhecido em barris de carvalho por cerca de dez anos; e o Reserva Especial "Único", uma mistura de vinhos dos melhores anos, com envelhecimento igual e com o rótulo informando até mesmo o mês em que foi engarrafado. A vinícola está localizado em Valbuena de Duero, na cidade de Valladolid, às margens do Rio Duero -- aquele mesmo Douro que, em Portugal, banha as videiras do Vinho do Porto.

A brilhante história deste vinho remonta ao ano de 1864, quando foram plantadas na região as primeiras cepas das uvas Cabernet Sauvignon, Merlot e Malbec, trazidas de Bordeaux, na França. Essas uvas foram plantadas em um local especial -- um terreno calcário, a 765 metros de altitude --, juntamente com vinhas locais, como a Tinto Fino, a Garnacha e a Albillo, esta a única branca. O vinho, porém, só foi lançado em 1898. O Vega é produzido apenas em anos excepcionais. O preço do Vega-Sicilia, safra de 1970, está na casa dos 354 dólares. O empresário Ciro Lilla, dono da Mistral Importadora, aponta as safras de 1965, 1968 e 1970 como as melhores que degustou.

La Grande Dame

É o champanhe clássico e especial da maison Veuve Clicquot, elaborado apenas nos grandes anos. A prestigiosa marca surgiu em janeiro de 1772, na região de Reims, em Champagne, na França, sob a batuta do vinhateiro Philippe Clicquot. O primeiro vinho foi engarrafado em 1780 e ganhou renome internacional, quando a nora de Philippe, Nicole Barbe Ponsardin, passou a tocar os negócios, em decorrência da morte do marido, que sucedeu ao pai. Madame Ponsardin conseguiu tanto

sucesso que recebeu o título de Grande Dame da região de Champagne -- daí o nome deste reserva especial.

Aroma de frutas secas e mel e sabor de frutas, como maçã e pêra. Foi lá que nasceu o remuage, etapa do processo que consiste em girar as garrafas, com o gargalo inclinado para baixo, para que todas as impurezas fiquem concentradas e possam ser expulsas na fase seguinte de sua preparação. As safras de 1989 e 1990 acabam de chegar ao Brasil e são maravilhosas.


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